sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Fortuna do mar – a tragédia do S/S “El Faro”

S/S "El Faro", que naufragou no Triangulo das Bermudas, Atlântico Norte, em 1/10/2015
O cargueiro de bandeira americana “El Faro”, afundado pelo furacão Joaquin, estava navegando com quase sua velocidade máxima para o centro da tempestade, antes de ter perdido a propulsão em meio a ondas gigantescas e ventos brutais, de acordo com dados de rastreamento do navio.

Os dados obtidos pelos analistas suscita questões sobre a afirmação do armador de que o comandante do navio havia escolhido um “plano bem embasado” para contornar o Joaquin “com margem de segurança”, mas o plano foi frustrado pelo problema na máquina do navio. Isto leva a crer que, antes mesmo do navio ter perdido a propulsão, ele estava em águas tempestuosas que a maioria dos marinheiros preferem nunca ter que enfrentar. 

Depois de analisar os dados, Klaus Luhta,  presidente da Organização Internacional de Capitães, Oficiais de Náutica  e Práticos da Marinha Mercante, ficou em silêncio por um momento enquanto contemplava o que está sendo chamado como o pior desastre envolvendo um navio de bandeira americana em mais de 30 anos.

“Eu não sei o que ele estava pensando – “Eu não posso nem especular,” disse Luhta em entrevista a um canal de TV. “Ele se dirigiu direto para o trajeto do furacão”.

Enquanto a tomada de decisão do capitão do “El Faro” pode parecer inexplicável vista de fora, o Comandante Michael Davidson, formado pela Academia de Marinha Mercante do Maine, era um marinheiro experiente, acostumado a navegar nas regiões tormentosas do Atlântico Norte e não está claro quais os fatores que o teriam influenciado enquanto tentava salvar seu navio da calamidade.

O “El Faro” parou de se comunicar depois de informar, na madrugada do dia 1º de outubro, que havia perdido a propulsão, que a água do mar estava invadindo o navio e ele estava adernando. Não foi informada a razão da perda de propulsão.
Rumo de colisão com o furacão: como o “El Faro” encontrou o seu fim.
A rota do S/S "El Faro", conforme as transmissões de posição via satélite.
A rota alternativa seria passar entre Cuba e as Bahamas.  
Um porta-voz do armador do navio, TOTE Inc, Michael Hanson, não quis comentar, dizendo que a National Transportation Safety Board (NTSB), que está investigando o naufrágio, pediu que qualquer questão relacionada com o acidente fosse transmitida somente para eles.

Os dados de rastreamento do navio, que indicam o curso mais exato do “El Faro” nas 24 horas que antecederam o desastre, também mostram que, ao contrário de alguns relatórios, o navio não seguiu uma derrota normal.

Às 06:16h ET (hora leste dos Estados Unidos), do dia 30 de setembro, dez horas depois de ter saído de Jacksonville, Flórida, o navio começou a se desviar de sua rota usual para San Juan, Puerto Rico. Ele deveria costear a Flórida, passando próximo das Bahamas, mas seguiu um rumo que foi de encontro ao caminho da tempestade, de acordo com os dados obtidos nas transmissões de satélite do navio, usados para rastrear sua localização e velocidade.

Nessa noite, espremido contra a cadeia de ilhas a oeste, o “El Faro” foi encurralado pela tempestade e se deslocou mais para sudeste em rota de colisão com o furacão. 

S/S "El Faro"
O “El Faro” era um navio porta-container/roll on-roll off de 241 metros de comprimento, 16.000 toneladas de porte-bruto e tripulado por 28 oficiais e marinheiros americanos. Levava 5 mecânicos poloneses que faziam serviços de manutenção à bordo. Nesse ponto o navio ainda estava navegando com quase toda força adiante, cerca de 20 nós (36,6 km/h).

Rota de Fuga - Os comandantes que revisaram os dados disseram que na manhã de 30 de setembro, ainda ao norte das Bahamas, e a centenas de milhas da tempestade, Davidson ainda teve três boas opções: reduzir a velocidade, voltar com o navio ou mudar o rumo para oeste em direção à costa da Flórida. Ele tinha acesso à previsão do tempo, fornecida a pequenos intervalos de tempo pelo Centro Nacional de Furacões (NHC), dando a velocidade estimada, força e direção da tempestade.

O “El Faro”, por ocasião da tempestade tropical Erika, em 2 de agosto, adotou a rota costeando a Flórida quando estava indo em direção ao Caribe. A decisão de não adotar essa mesma rota em 30 de setembro não ficou clara. O capitão pode ter se preocupado em costear a Florida e ficar encurralado entre Cuba e as Bahamas com tempo ruim, disseram especialistas.

Como diminuíram as opções do “El Faro” - Por volta das 17:00h ET de 30 de novembro – nove horas depois de Joaquin ter sido elevado à condição de furacão categoria 5 – o navio passou pelo través do farol “Hole in the Wall”, onde existe uma passagem no arquipélago das Bahamas,  utilizada há séculos pelos marinheiros para escapar para oeste através das ilhas, em direção a Cuba. 
Mas, escapar por esta via seria prolongar a viagem e consumir mais combustível. Estes teriam sido os possíveis fatores que levaram o capitão a não utilizá-la.

Nesse ponto a previsão da NHC de que o furacão se aproximaria das Bahamas, antes de voltar para o norte, deixou Davidson sem opções viáveis, afirmam os profissionais do mar. O navio estava comprometido com um rumo para o sul, direto para a tempestade.

“Você deve sempre ter uma rota de fuga de emergência”, disse o Comandante Scott Futcher, um capitão de longo curso com 20 anos de experiência no mar. “Ele deveria ter ido mais ao sul. Somos ensinados de que você tem que ter uma saída, mesmo que você tenha que fazer um enorme círculo para fugir do furacão”.

video
O vídeo acima mostra um navio enfrentando ondas de categoria 10. 
O "El Faro" enfrentou ondas de categoria 12 (Furacão)!

Os dados de rastreamento mostram que o navio de fato foi mais ao sul, desviando-se cerca de 100 milhas do seu curso normal, mas não foi o suficiente para escapar do Joaquin.

Não houve muita margem para manobra, disse John Konrad, capitão de longo curso e fundador do gCaptain, um site de notícias marítimas. “A seu bombordo (a leste) ele tinha o furacão Joaquin. A seu boreste (a oeste) existiam muitas ilhas. Ele estava cercado por todos os lados. A única opção que ele tinha era retornar (inverter o rumo 180°)."

Às 21:09h ET do dia 30 de setembro, a cerca de 200 milhas a noroeste da tempestade, o navio estava desenvolvendo 20 nós, muito próximo da sua velocidade máxima. O “El Faro” estava indo direto para a trilha do furacão prevista pela NHC, que passou a desenvolver ventos de 105 mph (170 km/h) e provocar ondas acima de 15 metros (categoria 12 - Furacão, na Escala Beaufort). 

Às 02:09h ET do dia 1º de outubro, o “El Faro” estava a apenas 50 milhas do olho do furacão Joaquin. Nesse ponto o navio ainda estava com uma velocidade de 17 nós, de acordo com dados de rastreamento do navio.

Enfrentando ventos violentos e altas ondas, às 03:56h ET a distância percorrida havia sido mínima. Sua velocidade  havia sido reduzida para 10.7 nós.

A companhia armadora informou que existem diferentes rotas comerciais de navegação utilizadas pelos seus navios para Porto Rico, que variam de acordo com as condições de tempo. A rota foi determinada pelo comandante Davidson sem envolvimento da sede da empresa (como deve ser!).

M/V "Azure Bay"
Ao contrário do “El Faro”, pelo menos um outro navio na área safou-se do Joaquin. O “Azure Bay”, um graneleiro da Pioneer Marine, baseada em Cingapura, estava navegando para o norte, passando por Cuba, em direção às Bahamas nas primeiras horas do dia 30 de setembro, quando seu capitão foi advertido que seu curso passaria a 150 milhas da influência do Joaquin. Ele decidiu, então, contornar Cuba pelo sul para “fugir da tempestade”, de acordo com um porta-voz da Pioneer Marine.

O que aconteceu nas primeiras horas do dia 1º de outubro, após ter sido perdido o contato com o “El Faro”, não é conhecido. Os investigadores da NTSB vão vasculhar a área e tentar localizar o Registrador de Dados de Viagem –VDR (a caixa preta do navio), para tentar juntar, algumas peças do quebra-cabeça.

O VDR (Voyage Data Recorder) grava várias informações do navio, incluindo rumo, velocidade, posição pelo GPS, regime das máquinas e gravação das conversas na ponte de comando, entre outros.

A Divisão de Mergulho e Salvatagem da Marinha dos EUA está encarregada de procurar os destroços do "El Faro" e recuperar o VDR.

Até o momento em que a Guarda Costeira dos EUA suspendeu as buscas, somente um corpo tinha sido localizado. Os demais continuam desaparecidos e presumivelmente mortos.

Atualização: o casco do S/S "El Faro" foi encontrado pela Marinha dos EUA no dia 31/10/2015, submerso em uma profundidade de 5.000m, 36 milhas a nordeste da Ilha Crooked, nas Bahamas, bem próximo da última posição transmitida pelo navio, antes de naufragar.

Veja também: minha experiência com o furacão Beulah, em 1967.

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