1º Tenente Sheila Morello |
Há
exatamente um ano, eu não uso mais farda. Não faço mais o habitual coque, nem
pinto as unhas de branquinho.
Há um ano,
não entro mais em forma embaixo de sol. Nem preciso ser superior ao tempo
quando começa a chover.
Para minha
felicidade, há um ano não faço TAF. Corro só quando tenho vontade. Mas, para
minha tristeza, também não faço TAT e sinto muita falta dele.
Há um ano,
paquero de longe o PDC quando passo em frente a ele. Isso acontece todos os
dias, de segunda a sexta, de manhã e à noite.
Há um ano,
não ando mais em viatura, mas continuo usando (e muito) jargões de miliquês.
Há um ano,
não participo de operações, nem de ações cívicas sociais, nem de solenidades
militares.
Há um ano,
não ouço o som do bumbo... Aquele que nos diz que devemos colocar o pé direito
no chão, enquanto desfilamos.
Há um ano,
não presto continência, nem sou chamada de "senhora". Era tão
estranho ser chamada de senhora aos 24 anos...
Eu era uma
menina quando ingressei nas fileiras do Exército Brasileiro. Não sabia nada da
vida castrense. Não sabia nem que iria usar farda. De cara, odiei. Depois, me
apaixonei. E a paixão virou amor, daqueles que nunca morrem.
Durante o
último ano, só tive coragem de voltar ao PDC uma vez. E derramei lágrimas sem
fim com cada amigo que encontrava nos corredores.
Talvez seja
complicado para um civil entender. Mas ser militar é muito mais que ter um
emprego. É ter uma família, uma segunda casa, lições de vida e amizades
duradouras. É compartilhar valores, perrengues, missões, tradições. É
multiplicar companheirismo, cumplicidade, camaradagem. É entender o significado
literal de "servir". É superar limitações e se orgulhar muito disso.
Só entende quem passa por isso. Aliás, só entende mesmo quem
"vivência" isso.
Há um ano,
eu me preparava para um dos dias mais emblemáticos da minha vida: o dia de
deixar a caserna. Por mais que, desde 2006, eu soubesse que este dia chegaria e
até tenha tentado me preparar para ele, confesso que não estava preparada. Doeu
como se estivesse me despedindo de um grande amor. E estava.
Ainda
atendo o telefone no ímpeto de dizer "Assessoria de Imprensa do Comando
Militar do Leste".
Ainda penso nas histórias do fim de semana que vou
contar para as minhas companheiras. Ainda lembro e celebro as datas festivas do
calendário do Exército. Ainda conto as experiências vividas, como se tivessem
acontecido na semana passada. Ainda lembro da formatura mensal e revivo na
memória, com lágrimas nos olhos, a última vez que entrei em forma no Dia da
Bandeira de 2013. Por mais incrível que possa parecer (milicos entenderão),
minha família também lembra e revive muitas coisas comigo.
Ah! Como
sinto saudades... Saudade daquela camaradagem. Saudade das missões. Saudade de
me arrepiar em forma, ao som da Canção do Expedicionário. Saudade da minha
farda. Saudade de ser a Tenente Sheila. Não pela patente, pois quem me conhece,
sabe que nunca me vali dela, mas pelo orgulho de ser uma Oficial do Exército
Brasileiro. Continuo sendo uma Oficial do nosso glorioso EcoBravo, mas agora
componho a reserva atenta e forte. Saudades...
O tempo
passou tão rápido e eu agradeço a Deus TODOS OS DIAS pela manifestação da graça
superabundante Dele em minha vida. Pelos novos desafios que Ele me tem dado,
pelos novos aprendizados, pelas oportunidades e conquistas diárias. Sou muito
feliz pela oportunidade ímpar que estou vivendo hoje. Tenho muito orgulho de
fazer parte de um projeto tão expressivo para o nosso país. Peço a Deus que me
abençoe e me capacite para que eu possa somar e dar sempre o melhor de mim no
meu trabalho.
Contudo, saudade
é algo que não controlamos. Às vezes, nem ao menos sabemos explicá-la direito.
Mas, na minha opinião, saudade é a confirmação de que algo que vivenciamos
valeu a pena. Integrar o Exército valeu muito a pena. Foi muito mais que uma
experiência de emprego, foi uma escola de vida, da qual - hoje - trago comigo
os melhores ensinamentos.
Ao Exército
Brasileiro, minha continência, meu reconhecimento, meu eterno respeito,
admiração e amor.
Brasil acima de tudo!
Sheila Morello
Por causa de depoimentos como esse que vibro cada vez mais com a minha profissão e vejo que os valores são fundamentais não só na nossa vida profissional, mas, principalmente, na vida pessoal. Parabéns pelas palavras amiga Sheila. Mas Porto Alegre
ResponderExcluirParabéns pelas palavras, Ten Sheila. Muito sucesso agora e sempre. Antiaérea Brasil!
ResponderExcluirJá q era tão bom assim... então pq saiu ?
ResponderExcluirPorque ela era temporária e por mais que essa palavra seja difícil de pessoas como vc entender, o tempo dela acabou....
ExcluirLeo, sair muitas vezes não é uma opção própria, há uma necessidade de formar efetivos para a Reserva das Forças Armadas, os chamados "temporários". Há os de carreira, mas que também tem o seu limite, no geral 30 anos de serviço, e esse foi o meu caso. Deixar as atividades é sempre duro, seja para os de carreira ou temporários, porém temos de aceitar a situação, pois depois de nós, virá uma nova geração, mais jovem e apta a dar continuidade ao nosso legado, e é isso o que importa, a semente foi plantada por nós, e alguém dara continuidade ao legado... espero ter sido útil para você! abraços
ExcluirChorei. Chorei de saudades dos 36 anos 6 meses e vinte e um dias wue passei na ativa
ResponderExcluirSheila com estas poucas palavras resumistes muito bem o que é a nosso EB, me fizestes chorar mesmo eu tendo passado mais de 30 anos vivendo esta vida.
ResponderExcluirEu também fui tenente temporária. Fiquei na instituição militar por alguns anos porque precisava de dinheiro e ganhava pouco no meio civil. Ao contrário de você, eu não gostava de formaturas e escalas de qualquer tipo. Fazia por necessidade. Hoje, também faz aproximadamente em ano que saí e eu nunca me senti tão livre na minha vida. Não posso dizer que me arrependi do tempo que passei lá porque seria o mesmo que dizer que me arrependi de ter almoçado ontem....
ResponderExcluirComo no amor, em que por medo temos medo de nos entregarmos totalmente para não sofrermos, há aqueles que não se doam no tempo em que estão na ativa, e na realidade não São Militares, Estão Militares! Pare esses, tudo realmente é mais dolorido, penoso, mas com o tempo, ao descobrirem que o mundo lá fora não é Cor de Rosa, poderão valorizar os valores cultivados na Caserna, e talvez até, sentirem um pouco do que a Sheila fala...
ExcluirLindas palavras... parabéns Sheila Morello
ResponderExcluirEMOCIONANTE
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