quarta-feira, 28 de maio de 2008

Faltam marinheiros no mar . . .

A globalização foi talvez a maior mudança no mundo contemporâneo, depois da revolução industrial do século 19. Os resultados são sentidos em todos os aspectos da nossa vida. Mas é interessante observar o impacto da globalização na logística mundial. Com o aumento do intercâmbio comercial, a necessidade de mais navios cresceu geométricamente. O tamanho e a capacidade de carga também. A consequência natural é a falta de profissionais para operar estes navios. A Conferência Mundial Sobre o Homem do Mar, realizada em Singapura no início de Maio, mostrou como é extensa a crise de mão-de-obra na Marinha Mercante mundial. Com cerca de 10.000 navios em construção em todo o mundo, a indústria marítima vai precisar de uns 400.000 novos marinheiros (entre Oficiais e tripulantes), para operá-los. E onde estão estes profissionais? Desde que a Marinha Mercante deixou de ser um emprego atrativo na maioria dos países desenvolvidos, a busca por marinheiros voltou-se para a Ásia, Filipinas e Índia. Os Oficiais continuavam sendo procurados nos países tradicionalmente marítimos (Inglaterra, Alemanha, Holanda, Escandinávia), além daqueles do Leste Europeu, como Polônia, Rússia, Ucrânia, etc. Formar um Oficial de Marinha Mercante leva de 4 a 5 anos. Um Comandante necessita de quase 12 anos, entre formação acadêmica e experiência no mar, antes de poder assumir o comando de um navio moderno. A verdade é que a vida no mar é extremamente exigente. Os navios ficam cada vez menos tempo nos portos e as tripulações são cada vez menores. Isto implica que cada pessoa à bordo de um navio tem que trabalhar entre 10 e 12 horas por dia, 7 dias na semana. Nos países desenvolvidos, muito pouca gente está disposta a ficar tanto tempo longe da família, de uma vida social normal, para fazer uma carreira no mar. Não há salário de compense isto. Nos países em desenvolvimento, os soldos pagos pelas empresas internacionais aos marinheiros, eram um atrativo muito forte e que conseguia uma fonte generosa de mão-de-obra. Já não é mais assim. A procura por marinheiros, no últimos dois anos, tem se voltado para o Vietnã, Indonésia, Burma e Bangladesh, com uma expressiva queda na qualidade. O consenso, na Conferência, é que a própria indústria da navegação comercial é a responsável pela crise enfrentada, ao aumentar significativamente a carga de trabalho à bordo dos navios, em decorrência da redução nas tripulações. Poucos armadores internacionais procuraram compensar este fato com ações eficazes. Exceção à regra são algumas empresas de navegação, como as alemães Hamburg Süd e Hapag-Lloyd, além da japonesa NYK, que reconheceram que sua futura prosperidade econômica depende de investimentos na formação de seus Oficiais e tripulantes. A Hamburg Süd (onde trabalho), recentemente incorporou à sua frota o navio “Monte Tamaro” (capacidade para 5.500 containers), que é equipado com instalações para ser usado como navio-escola. Além disso, faz contribuições generosas à Academia de Marinha Mercante de Hamburgo, para que esta instituição possa aumentar o número de cadetes admitidos, por ano. Com a formação de um Oficial tomando de 4 a 5 anos e os navios encomendados sendo entregues em até 3 anos, em algum momento no futuro próximo as empresas vão ficar, literalmente, a ver navios . . . parados por falta de tripulantes.

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